O Comportamento Humano, Segundo Merleau-Ponty

Na opinião do filósofo francês, Merleau-Ponty, a cultura e a ciência clássicas menosprezaram por vezes tudo aquilo que no corpo humano transcendesse a sua mera função de suporte físico. Nomeadamente no que respeita à dimensão vivida e experiencial sempre presente no decurso das várias facetas da vida humana.

1. O comportamento humano
Para Merleau-Ponty o comportamento humano tem como base a relação corporalmente estabelecida com tudo o que o envolve, subvertendo assim as tradicionais alternativas entre “psíquico” e “orgânico” em que até ao momento se fez assentar a forma de pensar e intervir mais ou menos generalizada dos treinadores desportivos e comportamentais.
Ao colocar claramente em causa o determinismo, (ainda atualmente existente!), quanto ao que acontece no processo estímulo/reação, Merleau-Ponty começa desde logo por exigir aos treinadores na área comportamental uma necessária revisão dos seus procedimentos e metodologias. E, principalmente, que consigamos através da perceção da realidade que nos rodeia atribuir um significado vital determinado a tudo o que observamos e sentimos.
Defendendo que a perceção dos nossos atos visa apreendê-los como realidades experimentadas e ao relacionar a sensação com a ação, Merleau-Ponty propõe aos treinadores comportamentais a noção de corpo global, vivido e experiencial.
Clarifica também que não existem sensações absolutamente isoladas ou isoláveis e que toda a sensação é espacial e temporal, não apenas quinestésica, (toque, sentir), como também cinestésica, (equilíbrio, orientação espacial) e que a sensação deve ser compreendida numa estreita relação e complementaridade com a perceção/consciência e o sistema motor.
O comportamento humano, não é assim para Merleau Ponty um processo mecânico provocado por estímulos exteriores, mas sim uma experiência sensorial aberta ao mundo exterior e interpretada através de uma filosofia dialética da existência. Um comportamento que decorre no âmbito de uma co-pertença entre a perceção/consciência e o meio ambiente, consoante os nossos interesses vitais.
Para Merleau-Ponty o comportamento humano deixa de ter significado em si mesmo pois exige ser compreendido em relação aos objetivos de vida que se pretendem perseguir. No fundo, o ser humano, através do seu comportamento, confere valor funcional aos objetos da natureza que o rodeiam através da sua continuada dialética entre o físico, o vital e o mental.
Relacionamo-nos com tudo o que nos rodeia consoante o tipo de experiências prévias e, principalmente, somos acima de tudo e enquanto corpos vividos, sensibilidade, expressividade e relações afetivas.
Focados em, de forma continuada, reaprender a ver o mundo, criamos intencionalmente novos sentidos e significados e, a partir da nossa perceção/consciência do mundo e total envolvimento com ele, vivenciamos uma experiência dirigida para a respetiva compreensão das coisas e dos outros.
Ao percebermos algo, fazemo-lo numa clara relação histórica entre passado e presente, relacionando a perceção com a atitude corporal e entendendo a experiência do corpo como uma experiência sensível através da qual se desenvolvem os nossos sentidos.
O que, naturalmente, reforça a importância dos conceitos de “aprender a fazer fazendo e de treinar como se joga” contidos na metodologia de treino na área comportamental que designámos como “Pensar e Intervir como um Treinador”.
Temos afinal um corpo próprio, vivido e sensível que, a partir do nosso sistema sensorial se centra no experiencial enquanto verdadeira síntese da perceção e do movimento.
Uma verdadeira circularidade entre processos corporais e estados neuronais, (entre corpo e mente!), centrada numa total complementaridade dos nossos sentidos e do mundo, e em que o corpo, a experiência do movimento e a perceção/consciência emergem numa profunda relação circular entre o corpo como um todo e a totalidade do meio ambiente.
No fundo, o corpo (vivido), a perceção/consciência e a motricidade (sistema motor), encarados globalmente e numa interação e complementaridade constantes, revelam que o comportamento, é um modo de sintonização com tudo o que nos rodeia. Corporal e dependente de experiências sedimentadas anteriormente e estando, por essa mesma razão, muito para além da simples destreza mental, técnica, morfológica ou fisiológica.


2. Em que bases assenta então o nosso comportamento?
Numa co-relação constante entre corpo e meio ambiente, corporalizada e em situação, através de atitudes e comportamentos cujos contextos têm sempre sentido, emoções, sentimentos. Também num sistema sensorial e motor, (esquema corporal) e numa perceção inter-modal, (em que os nossos sentidos se complementam), incorporando posições e movimentos, adquirindo hábitos, e movimentando-nos numa constante complementaridade entre visão e propriocepção e numa circularidade entre corpo e meio ambiente. Habitamos assim o meio ambiente em que nos inserimos projetando-nos como um todo e percebendo o que nos rodeia através do nosso comportamento, (motricidade), carregado de intencionalidade e significado.
Movemo-nos e relacionamo-nos sempre com um determinado significado corporal prévio, manifestando uma consciência corporalizada aberta a tudo e a todos. Adquirimos um saber do corpo e humanizamo-nos através das nossas relações inter-subjetivas e inter-corporais. Não somos seres inertes e passivos e operamos constantes sínteses percetivas incorporando movimentos e comportando-nos na maioria das vezes sem controlo consciente e sob permanente influência corporal. Temos uma vivência corporal no imediato, pré-reflexiva, (inconsciente) e quando olhamos e vemos, tateamos, cheiramos ou tomamos o gosto de algo, fazemos de imediato a respetiva síntese percetiva estabelecendo uma constante relação entre nós e tudo o que de sensível nos rodeia.
Como ponto de partida, uma experiência percetual pré-objetiva, (inconsciente), assente nas experiências anteriormente vividas, na motricidade, na linguagem e num corpo profundamente expressivo.
Sentimos, em complementaridade, o quinestésico, (toque, sentir) e o cinestésico, (equilíbrio, orientação espacial) e evidenciamos uma constante intencionalidade comportamental, (os nossos movimentos estão sempre relacionados com os objetivos a atingir em cada contexto e circunstância).
Conclusão, tudo o que se refere a treino comportamental necessita estar baseado numa continuada experiência sensorial aberta ao mundo exterior e interpretada através de uma filosofia dialética de existência.

Jorge Araújo
Presidente da Team Work Consultores

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