Artigo de Opinião - Jorge Araújo

Questionaram-me, “porque não dar a sua opinião acerca da eleição do Donald Trump?”.

Ao contrário do habitual, tentei de todas as formas possíveis para “escapar” ao desafio...
Mas estava perante uma adversária daquelas... “antes quebrar que torcer”...
Que persistiu tanto que, no desespero que ia sentindo face à insistência a que me senti sujeito, subitamente fui assaltado por uma memória de há muito.
O livro “Viagem às Emoções” do catalão Eduardo Punset.
Principalmente uma das suas afirmações “O maior desafio dos seres humanos, são os outros seres humanos!”.
Terminou aí a minha resistência. Aqui têm uma das razões porque Donald Trump foi eleito, (citando o Eduardo Punset):


"As nossas crenças e convicções têm um poder avassalador perante o que percepcionamos na realidade. O que herdamos do passado, sobrepõe-se, quase sempre, ao que configuramos para o futuro.
A maioria das nossas decisões, não são baseadas no que vemos ou consideramos bom ou mau, mas sim tomadas em função daquilo em que acreditamos previamente (as nossas crenças e convicções).
Estas convicções herdadas, não só nos impedem de compreender o que vemos, como de prever o futuro, pois só conseguimos imaginar o futuro, recompondo o passado.
Imaginar é quase idêntico a ver e por isso confundimos, muitas vezes, o que se passou de verdade, com aquilo que imaginámos que se passou (tudo decorre no hipocampo onde juntamos diferentes pedaços de memórias passadas).
As crenças e os sentimentos que sabemos, cremos e sentimos no presente, afectam as nossas evocações do que cremos ter sucedido no passado. A nossa memória do passado, está muito influenciada pelos nossos sentimentos e crenças actuais.
Muitas vezes a tomada de decisão intuitiva é mais eficaz que a racional!
Em vez de reflectirmos sobre o futuro, “fechamo-nos” sobre os dogmas que nos dividem.
Fabricamos o futuro com pedaços das memórias do passado. Somos extremamente influenciados pelos dogmas que nos são inculcados. A realidade é uma fabricação cerebral!
O nosso cérebro detesta alterar os seus hábitos. E uma vez aceite uma determinada mudança, de imediato torna igualmente difícil voltar a mudar. Inconscientemente recusamos a mudança.
A consciência social pode no entanto suprir essa dificuldade. O sentimento de pertença a um grupo, pode ajudar-nos a mudar de opinião pois a consciência social tem um poder normativo considerável e permite-nos saber quem somos e também quem são aqueles que nos rodeiam.
A maioria das pessoas dedica muito mais tempo a explicar o que pensa, que a esforçar-se por entender o que pensam os outros.
O nosso comportamento social e emocional possui traços genéticos e biológicos próprios, que nos diferenciam uns dos outros e determinam uma parte significativa da nossa conduta potencial no meio ambiente em que nos inserimos.
Mas não só! Também somos influenciados e moldados através de constantes interacções entre esse meio ambiente (nature) e os genes (nurture) com que nascemos.
O que significa que, verdadeiramente, o que seremos (somos), nem sempre irá corresponder ao potencial genético com que nascemos, pois o meio ambiente em que nos desenvolvemos é de decisiva importância na determinação do nosso verdadeiro EU.
Somos muito influenciados pelas expectativas do meio ambiente que nos rodeia e, para o bem, ou para o mal, todos aqueles com quem convivemos social e familiarmente funcionam em relação a nós como verdadeiros “espelhos” (neurónios espelho).
Sobrevivemos (mais e melhor) quando em grupo e no usufruto da designada inteligência social. Temos uma marcada vocação social que nos permitiu sobreviver ao longo de milhões de anos.
Ao fim e ao cabo, os genes determinam a nossa conduta potencial e o meio ambiente em que vivemos modela a prática do nosso comportamento.
A nossa conduta está muito determinada pelas experiências passadas, pelo meio ambiente e por processos cognitivos, quase todos inconscientes, o que torna sempre muito difícil qualquer tipo de mudança comportamental.
É muito difícil desaprender e mudar de opinião!
No nosso processo de tomada de decisão a intuição (o inconsciente, ou o subconsciente) é tão importante como a razão.
O inconsciente é responsável pela maioria das decisões que tomamos. A conduta de uma pessoa não depende necessariamente de actos conscientes, pois pode desenvolver-se sem que essa pessoa dê por isso. Existem processos cognitivos complexos absolutamente inconscientes.
Sempre que procuramos explicar o que fazemos de forma racional, perdemos eficácia. O nosso cérebro passa a maior parte do tempo a fazer conjecturas (a adivinhar). O que nos conduz à questão “para que serve então a consciência?”.
A consciência serve para distinguir o passado do presente e o presente do futuro.
Quando aprendemos, produz-se uma mudança (física) nos nossos neurónios cerebrais e nas suas redes de sinapses, embora a memória só permaneça a partir dos dois anos de idade (antes desta idade, não temos memória daquilo que nos aconteceu).
A história da civilização é a história da automatização dos nossos processos comportamentais e as nossas decisões designadas como conscientes, não são mais que a racionalização interessada e posterior de mecanismos inconscientes."

E para reforçar um pouco mais esta minha resposta à pergunta “Porquê Donald Trump?”, termino citando o jornalista Sena Santos na Sapo 24:

"Faz sempre bem ouvir os sábios: Zygmunt Bauman, decano dos sociólogos europeus e observador implacável do nosso mundo, analisa na revista italiana L’Espresso a vitória eleitoral de Trump. Assim: diz que “é um sintoma alarmante, reflete o divórcio entre poder e política, do qual resulta um vazio propício para ser ocupado por aqueles que, com base na retórica populista, prometem soluções fáceis e imediatas para problemas que são complexos”. Bauman, com a sabedoria profunda de uma vida de 91 anos vivida a estudar e investigar, analisa que Trump triunfou por ter aparecido como um antídoto para as incertezas do nosso tempo, mas, de facto, esse antídoto também é um veneno.O mundo tem hoje um exército de indignados porque a realidade do dia-a-dia destas pessoas piora continuadamente e as suas esperanças estão num beco sem saída. A revolta é plenamente justificada, está à solta nas redes sociais e irrompe no voto. É assim que em sucessivas eleições ou referendos o voto tem sido sobretudo um voto de protesto – votam mais para estar contra do que por adesão a ideias."

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